Agendas Cheias e Corações Vazios

Agendas Cheias e Corações Vazios

Broken heart

Se precisássemos escolher uma característica que refletisse com precisão a sociedade contemporânea, não erraríamos se disséssemos que vivemos em uma sociedade ativista. Pense por um momento como eu e você estamos sempre ocupados com algo. Estudo, estágio, trabalho, reuniões, mestrado, doutorado, controle financeiro, academia, futebol, cinema, vida social, namoro, casamento, filhos, cuidados com a casa, cuidado com os relacionamentos, etc. O fato é: cada vez mais estamos preenchendo nossa agenda já sobrecarregada com alguma outra atividade. Provavelmente, uma das frases mais usadas para justificar nossas faltas seja: “estou sem tempo”. E por incrível que pareça isso nem é mais uma “desculpa esfarrapada”. Trata-se de uma resposta verdadeira para muitos de nós.

O problema é que nem sempre nossa ocupação reflete apenas a conturbada agenda do homem contemporâneo. É provável que em muitas ocasiões nossa ocupação reflita acima de tudo uma intensa busca por sentido existencial. Como escreve Kevin DeYoung: “ocupação em demasia serve como uma espécie de segurança existencial, um muro contra o vazio”[1]. Acredito que temos buscado muitas ocupações para que de alguma forma aplaquemos o vazio existencial que por vezes nos perturba. Uma forma de ignorarmos nossas dores e angústias é nos ocuparmos com inúmeras atividades. Nesse sentido, ocupação e fuga da realidade são lados de uma mesma moeda. Temo que talvez seja essa uma das principais causas de uma agenda sobrecarregada.

Certa vez Jesus decidiu visitar duas irmãs no povoado de Betânia: Marta e Maria (Lc 10.38-42). Elas moravam na mesma casa e provavelmente compartilhavam das responsabilidades domésticas. Contudo, Lucas nos relata que nelas havia disposições bem diferentes. Ele diz que Marta “agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços”. Já Maria, “quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos”. Ambas demonstraram seu coração diante da presença do Redentor. Marta, se ocupando em servi-lo. Maria, se ocupando em ouvi-lo. Diante desse quadro descrito por Lucas, permita-me trazer três aplicações para nossa reflexão, a fim de enxergarmos os perigos de estarmos super ocupados e onde podemos encontrar descanso para um coração agitado e ocupado em muitos serviços.

  1. Ocupação em demasia muda nossa perspectiva sobre o próximo

A super ocupada Marta, ao perceber que sua irmã Maria não participava de seu ativismo, decidiu pedir a intervenção de Jesus na situação. Ela disse: “Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me”. Com as palavras de Marta aprendemos nossa primeira lição: pessoas ativistas tendem a ver os outros como relaxados e omissos. Marta não apenas se ocupava com muitos serviços, mas se ocupava também em tentar fazer de sua irmã alguém como ela. Sua perspectiva errada sobre a situação a fez acreditar que Maria deveria agir como ela. Diante de sua frustração, surgiram as críticas.

Conosco também é assim. Todas as vezes que nos ocupamos em demasia nossos relacionamentos sofrerão: ou pela nossa ausência, ou pela nossa expectativa irreal sobre o nosso próximo. Pessoas ativistas sempre esperam pelo dia em que todos serão como elas! Como isso nem sempre acontece, a frustração é inevitável e os problemas logo surgem. Assim, como seu ativismo e suas ocupações têm mudado sua forma de enxergar o próximo e prejudicado seus relacionamentos?

  1. Ocupação em demasia muda nossa perspectiva sobre Deus

A segunda lição a ser aprendida está nas palavras de Jesus. Sua resposta para Marta nos mostra um erro ainda mais grave: Marta, em seu ativismo, estava com a visão distorcida a respeito de Deus. Jesus disse a ela: “Marta! Marta! Andas inquietas e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada”. O ativismo de Marta não apenas distorceu a imagem de sua irmã, mas também distorceu a sua percepção sobre o Redentor. O erro de Marta foi acreditar que para servir Jesus seu ativismo seria justificável, ou quem sabe até mesmo louvável! E assim, ela trocou o essencial pelo trivial.

O problema é que conosco também é assim. Todas as vezes que nos ocupamos em demasia, mesmo que seja para servir na igreja, ao invés de nos aproximarmos de Deus acabamos nos afastando dele. Isso acontece porque nosso ativismo funciona como uma barreira entre nós e Deus. É como se estivéssemos sempre querendo fazer algo por Deus enquanto deveríamos descansar no que Deus já fez por nós em Jesus Cristo. Por incrível que pareça é possível servir incessantemente a igreja e ao mesmo tempo se distanciar de Deus. Logo, como seu ativismo e suas ocupações têm mudado sua forma de enxergar a Deus e prejudicado seu relacionamento com ele?

  1. O modo como enxergamos Deus determinará nossa agenda

O ponto central dessa história narrada por Lucas não é apenas mostrar o coração humano e suas inclinações pecaminosas, mas mostrar, acima de tudo, quem Jesus é e como encontrar nele descanso para um coração agitado e inquieto. O grande problema de Marta não foi suas atividades com a finalidade de receber bem seu hóspede. Todos sabemos que para sermos hospitaleiros, como a própria Bíblia nos orienta, necessitamos cuidar de muitos detalhes. Limpeza, alimentação, acomodação, entre outros. O grande problema de Marta foi não perceber o que era prioridade e o que era secundário. Ouvir Jesus e desfrutar de um relacionamento com o Redentor naquele momento era infinitamente mais importante do que qualquer outra coisa. Aquilo era mais importante até mesmo do que tentar servi-lo.

Geralmente, incorremos no mesmo erro de Marta. Sobrecarregamos nossa agenda quando nos esquecemos do que realmente é importante. Quando não compreendemos quais devem ser as nossas prioridades, qualquer coisa poderá ocupar espaço em nosso curto tempo. Portanto, o modo como enxergamos nossa realidade determinará o que faremos de nossa agenda. Sendo mais específico: o modo como vemos Deus através da Escritura Sagrada determinará como usaremos o tempo e os talentos que Ele nos deu. Dessa forma, como sua agenda tem demonstrado suas convicções a respeito de Deus?

A Boa Notícia

A boa notícia para nós, pecadores ativistas sempre ocupados, é que Jesus veio para nos libertar de nós mesmos. Sua redenção não somente nos proporciona perdão pelos pecados do ativismo e da inquietação, mas também capacitação para viver uma vida de descanso no cuidado do Pai Celestial. Seu Espírito pode transformar pessoas perdidas em suas ocupações em pessoas que buscam as prioridades do Reino de Deus; pessoas que preferem ouvir os ensinamentos de Jesus nas Escrituras a qualquer outra coisa. Não espere uma brecha entre uma ocupação e outra para ouvi-lo. Ao invés disso, ouça-o dizer quais devem ser suas ocupações.

[1] KREIDER, Tim apud DEYOUNG, Kevin. Super Ocupado. Ed. Fiel: São Paulo, 2014. Pág. 34.

 

Eron Franciulli Coutinho Jr.

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