Dois Dedinhos de um Vinho Chamado Culpa

Dois Dedinhos de um Vinho Chamado Culpa

Uma das coisas mais difíceis de se fazer é assumir a culpa pelos próprios erros. Comumente fazemos coro a Homer Simpson, afinal “se a culpa é minha eu ponho ela em quem eu quiser”. E assim vamos. De culpa em culpa – sobre os ombros alheios, é claro. Definitivamente, culpa é como um bom vinho: todo mundo gosta de compartilhá-lo, especialmente com os que estão mais próximos. 

Triste que nosso primeiro pai tenha feito exatamente isso. Após desobedecer ao mandamento divino de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, quando questionado por Deus sobre sua atitude, Adão respondeu: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). Repare com atenção nessa sequência de três justificativas que ele usou para minimizar a culpa por sua desobediência.

Antes de qualquer outra coisa, ele atribui a Deus a causa de seu erro: “A mulher que [tu] me deste por esposa”. Ou seja, quem deu a ele aquela “terrível” esposa que o conduziu ao pecado? Deus. Logo, a primeira taça – cheia, por sinal – vai para Deus. Depois ele diz o mesmo sobre sua mulher: “ela me deu da árvore”. Soa quase como que um “eu não tive escolha, Senhor”. Então, a segunda taça – também cheia – é de Eva. A terceira, ou seja, aqueles “dois dedinhos” que sobraram, fica com Adão. Depois de culpar Deus e Eva, ele finaliza: “e eu comi”. Só faltou dizer que comeu obrigado.

Nossa reação aos erros, pecados e falhas que cometemos não é muito diferente do que fez nosso primeiro representante. Com frequência culpamos “Deus e o mundo” por nossas palavras e atitudes, menos a nós mesmos. É sempre mais fácil empurrar sobre os outros aquilo que não queremos ter que lidar: a nossa assustadora habilidade para pecar contra Deus e o próximo. É sempre mais fácil ver o argueiro alheio do que a trave própria (Mt 7.5). A verdade é que nós gostamos de compartilhar desse vinho chamado culpa. Se todos beberem dele e não sobrar nada a nós, melhor ainda.

No entanto, se o primeiro Adão nos representou bem naquilo que fazemos de errado, o segundo Adão nos representou ainda melhor naquilo que deveríamos fazer. Jesus Cristo obedeceu completamente à lei de Deus e ainda tomou em seus ombros a culpa por nossa desobediência. Repare na lógica inversa: enquanto o primeiro Adão desobedece e empurra sobre os outros a culpa que era dele, o segundo Adão obedece e assume pelos outros a culpa que não era dele. Ele não divide o vinho, nem ao menos dois dedinhos, mesmo não sendo ele quem merecia tomá-lo. E que vinho amargo foi esse.

E é por causa de Cristo que eu e você podemos lidar com nossos erros e pecados sem querer culpar o nosso próximo por eles. Se você está em Cristo, sua culpa já foi cravada juntamente com ele na cruz (Cl 2.14). Isso faz você livre para assumir seus pecados e pedir perdão a quem ofendeu. Você é livre para não mais responsabilizar os outros por aquilo que é responsabilidade sua, sabendo que em Cristo você é perdoado de seus pecados e capacitado a não mais viver sob o domínio de qualquer um deles. E uma vez que a taça amarga desse vinho chamado culpa já foi tomada por Cristo, hoje você pode imitá-lo, até mesmo sendo injustiçado, por amor ao próximo. Assim como ele fez por nós.

Eron Franciulli Coutinho Jr

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