E, quando orares… Parte1

E, quando orares… Parte1

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E, quando orares…


 

Orar é popularmente definido como “falar com Deus”. Nesse sentido, a oração deveria ser uma das atividades mais prazerosas da vida cristã, pois a comunicação com Pai celestial é fonte de imensa alegria para seus filhos. Além do mais, a Bíblia indica que Deus tem prazer em ouvir a voz dos seus filhos, pois ela compara as orações dos santos ao incenso aromático que sobe à presença do Pai (cf. Apocalipse 5.8). No entanto, assim como ocorreu com os apóstolos, muitos cristãos sentem que precisam aprender a orar (cf. Lucas 11.1). Se considerarmos que Jesus, para ensinar seus discípulos, deu a eles um modelo de oração, fica claro que a melhor maneira de se aprender a orar é observando as orações inspiradas da Palavra de Deus.

A oração que Jesus ensinou, conhecida como o “Pai nosso”, é uma das passagens mais conhecidos da Bíblia. Muitos livros já foram escritos a partir do seu conteúdo e ela é frequentemente citada nas liturgias e cultos cristãos, o que a leva também a ser chamada de “oração dominical”. Além do mais, a história do cristianismo evidencia a influência dessa prece sobre o povo de Deus. Agostinho, por exemplo, costumava exortar cada cristão: “Repasse todas as palavras das santas orações e não pense que irá encontrar nelas algo que já não esteja contido e incluído na Oração Dominical”.1 O reformador João Calvino ensinava que Jesus “nos marcou uma fórmula de oração, na qual, como em uma tábua, nos propôs tudo quanto nos é lícito desejar dele, tudo quanto nos pode ser útil e de proveito, e tudo quanto nos é necessário pedir”. Nesse sentido ele ainda ensinava que, “seguindo a fórmula que ele nos prescreveu, lhe rogamos como por sua própria boca”.2 Finalmente, o conteúdo dessa oração também é costumeiramente usado nos credos, catecismos e confissões doutrinárias da igreja ao longo da história.

Antes, porém, de ensinar a oração do Pai nosso, Jesus instruiu seus discípulos sobre alguns princípios básicos da oração. Esses princípios se encontram nos versos anteriores à oração ensinada por Jesus e são relevantes para os cristãos de todas as épocas. Em primeiro lugar, Jesus ensinou que a prática da oração é parte essencial da espiritualidade cristã. Ao iniciar seu ensino aos discípulos, dizendo “e quando orardes” (Mateus 6.5), Jesus não tratou a oração como um exercício opcional na vida cristã, mas tomou por certo que os cristãos haveriam de orar. Talvez por essa razão Calvino afirmava que “a fé desacompanhada de oração a Deus não pode ser genuína”3 . Assim como o choro é uma das primeiras manifestações de vida no recém-nascido, a oração é uma das primeiras atividades do recém-convertido. Também, assim como as crianças não param de chorar, jamais deveríamos parar de orar.

Em segundo lugar, Jesus ensinou que a oração é o meio instituído por Deus para abençoar (recompensar) os seus filhos. Em Mateus 6.6, Jesus afirmou que o Pai que vê seu filho orando, o recompensará. Muitas pessoas perguntam: Se Deus já sabe todas as coisas, por que deveríamos ainda orar? Na verdade, Jesus ensina que a oração é um meio instituído por Deus para abençoar os seus filhos e filhas. Dentre as bênçãos advindas da oração está a própria comunhão e dependência de Deus, das quais, nem mesmo Jesus, sendo ele o Filho de Deus, não abriu mão. A Bíblia ensina que ele saia continuamente para lugares solitários para orar (cf. Marcos 1.35).

Em terceiro lugar, Jesus ensinou que o maior empecilho à verdadeira oração é a corrupção e maldade do coração humano. Muitas pessoas tentam justificar a ausência de uma vida sistemática de oração pelo fato de não terem tempo suficiente ou por serem impedidos por algum outro motivo. Porém, Jesus não focalizou nos aspectos externos da vida como empecilhos à prática diária de oração, mas ressaltou que alguns sentimentos errados do coração em relação à oração acabam nos impedindo de orar verdadeiramente (Mateus 6.5 e 7). Por exemplo, ele afirmou que alguns se aproximam da oração com hipocrisia, desejando receber a glória e o glamour advindos dessa prática. Outros, por sua vez, oram como se pudessem usar a prece como um mecanismo de coerção e manipulação do próprio Deus. Dessa maneira, quem deseja verdadeiramente orar deve examinar o coração, pois o salmista já havia aprendido e ensinado que: “Se eu no coração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ouvido” (Salmo 66.18).

De fato, a dedicação à oração não é uma alternativa para o cristão, mas é a vontade do Pai para os seus filhos amados. Nenhum crente pode esperar crescer espiritualmente sem um compromisso sistemático com a oração. Todos os servos de Deus no passado que experimentaram grandes transformações em suas vidas e que foram grandemente usados por Deus foram pessoas dedicadas à oração. Todavia, o maior benefício que eles tiveram por meio desse exercício foi o de conhecerem Deus de perto e se deleitarem com a comunhão íntima com o Pai celestial. Por isso, procure retirar um tempo, escolha um ambiente adequado, dobre os seus joelhos e comece dizendo “Pai . . .”.


 

1 AGOSTINHO, “Epistle 130”, Nicene and post-nicene fathers of the Christian church, vol. 1, (org.) Philip Schaff (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), tradução nossa. 2 CALVINO, O livro de ouro, 123-124. 3 João Calvino, O livro de ouro da oração (São Paulo: Novo Século, 2003), 14.

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