Evangelização e Cosmovisão Cristã

Evangelização e Cosmovisão Cristã

Infelizmente, muitos cristãos se sentem receosos demais para evangelizar. Alguns até contribuem, se colocando como parceiros nessa missão que Cristo designou à sua igreja, mas raramente se veem pessoalmente responsabilizados por ela. Afinal, quem contribui para o sustento de um missionário e/ou ora pela causa já faz o suficiente, não é? Na verdade, não.

Em parte, essa atitude é resultado da negligência do ensinamento bíblico sobre o assunto. Muitos parecem desconhecer que evangelizar é uma tarefa dada por Jesus a cada crente, de todos os lugares e em todas as épocas (Mt 28.18-20) e não apenas aos missionários, pastores e evangelistas. Por outro lado, aqueles que aceitam a responsabilidade missionária sentem-se, muitas vezes, incapacitados para executá-la, sem saber por onde começar.

De fato, é preciso algum treino teológico para cumprir com fidelidade a missão de evangelizar. A mensagem do evangelho deve ser exposta em sua totalidade e não apenas em partes. Repetir jargões como “Jesus te ama”, “você quer aceitar Jesus?” ou “dê uma chance para Deus” não é evangelização (é só repetir jargão mesmo). Além do mais, a mensagem do evangelho em declarações como essas acaba sendo reduzida apenas ao aspecto redentivo – além de serem teologicamente imprecisas ou equivocadas.

Para ser fiel à Escritura, a evangelização precisa estar alicerçada nos três elementos fundamentais da cosmovisão cristã: Criação, Queda e Redenção. Omitir ou menosprezar qualquer um desses aspectos resultará em uma evangelização “manca”. Ou seja, oferecer salvação sem explicar o pecado, por exemplo, é inútil, porque só precisa ser salvo (Redenção) quem está condenado (Queda). Assim, o tripé Criação-Queda-Redenção precisa estar equilibrado na evangelização.

Dito isso, é possível perguntar: “na prática, como se dá a evangelização alicerçada na cosmovisão cristã?” Vejamos, abaixo, essa relação através de três perguntas.

Criação: o que é o mundo?

Como escreve Nancy Pearcey, “…a mensagem cristã não começa com ‘aceite a Jesus como Salvador’, mas com ‘No princípio, criou Deus os céus e a terra’”[1]. Ou seja, a mensagem do evangelho começa com a Criação. Deus criou todas as coisas boas, para seu próprio louvor (Rm 11.36). Ele imprimiu no mundo a sua glória (Sl 19) e no ser humano a sua própria imagem (Gn 1.26,27). Isso significa que ele é a fonte de toda moralidade e justiça comunicadas ao ser humano. Portanto, ao falar do evangelho, precisamos “começar do começo”. A boa criação de Deus é base da evangelização. Obviamente, uma pergunta se levantará aqui: se Deus criou o mundo bom, o que há de errado com o mundo? Por que existe tanta maldade e sofrimento?

Queda: o que há de errado com o mundo?

A segunda haste do tripé responde à pergunta acima: o problema do mundo chama-se pecado. Quando nossos primeiros pais decidiram desobedecer a vontade do Criador, o mal entrou no mundo (Gn 3). A partir daí toda a criação foi corrompida pelo pecado e recebeu suas consequências mortais. O ser humano passou a viver em rebelião a Deus e não mais em adoração a ele. A própria natureza também experimentou as trágicas consequências do pecado. Portanto, ao evangelizarmos, depois de explicarmos a boa criação de Deus, precisamos mostrar o que a corrompeu e qual a nossa responsabilidade como criaturas pecadoras (Rm 3.23). Consequentemente, outra pergunta surgirá: como resolver o problema do mundo, então?

Redenção: como resolver o problema do mundo?

A terceira haste do tripé afirma que a solução para o mundo foi providenciada pelo próprio Deus Triúno, na pessoa de Jesus Cristo. O filho de Deus se encarnou, cumpriu perfeita e totalmente a lei de Deus e pagou a dívida dos pecadores, absorvendo na cruz a ira santa e justa do Pai. Ao ressuscitar, garantiu salvação a todos aqueles que se arrependem de seus pecados e olham com fé para ele (Fp 2.5-11; Cl 2.9-14, entre outros). Futuramente, quando voltar, Jesus salvará também toda a criação de seus males, restaurando completamente o projeto inicial de Deus (Rm 9.18-25; Ap 21.1-8). Portanto, somente após a explicação da Criação e da Queda, é que a Redenção proposta no evangelho ganha significado completo.

Sendo assim, a cosmovisão cristã precisa ser a base de toda e qualquer evangelização. Lembrarmo-nos do tripé Criação-Queda-Redenção é fundamental para que cumpramos com fidelidade a missão que Cristo nos deixou. Uma forma de melhorarmos nossa argumentação é dialogarmos, mental e hipoteticamente, como se estivéssemos explicando o evangelho a um não-cristão. Outra forma, igualmente produtiva, é lermos mais sobre a cosmovisão cristã (abaixo, algumas sugestões de livros). A medida em que aprendermos mais sobre o que a Bíblia ensina, ficaremos mais seguros para explicar no que acreditamos.      

Eron Franciulli C. Júnior

[1] PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta. CPAD. Rio de Janeiro, 2006. Pág. 49.

Literaturas Sugeridas:

SIRE, James W. O universo ao lado. 4. ed. São Paulo: Hagnos, 2009.

PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

WOLTERS, Albert. M. A criação restaurada. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

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