Não devemos fazer provisão para alimentar nossos desejos pecaminosos

Não devemos fazer provisão para alimentar nossos desejos pecaminosos

chocolate2Não devemos fazer provisão para alimentar nossos desejos pecaminosos


 

Vivemos em uma sociedade altamente tolerante ao pecado. Na história da sociedade brasileira, em particular, é notório que nos últimos anos há um significativo progresso na imoralidade nacional. Política, sexualidade e consumo ilustram essa realidade. O cenário político hoje dá-nos a impressão de haver uma certa normalização da corrupção. Já as mídias diversas (dos outdoors nas ruas à televisão, passando pela internet) demonstram o nível atual à imoralidade sexual. E o consumismo é imperioso em dias de direito de acesso aos bens de consumo, tornando-se direito ao endividamento de famílias e indivíduos, não apenas pela chegada da crise econômica, mas pelo consumo irresponsável em face dessa crise.
Assim, num primeiro momento, esse ambiente é bastante propício a qualquer um que deseja ter um estilo de vida voltado à satisfação contínua dos seus anseios pecaminosos; pois há cada dia menos repulsa social para o pecado. Uma infraestrutura perversa tem se estabelecido, em nome da liberdade, do direito ao entretenimento, ou qualquer outro termo sofisticado, para suportar a crescente imoralidade da nossa sociedade.
Por outro lado, esse mesmo cenário é extremamente desafiador àqueles que desejam ter um estilo de vida que se conforme ao Evangelho, em obediência ao chamado de Cristo para viver de “modo digno do evangelho de Cristo” (Fp 1.27). Não foi sem razão, evidentemente, que Cristo alertou seus discípulos para não ficarem com o coração “sobrecarregado com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo” (Lc 21.34).

Mas, embora seja verdade haver um progresso da imoralidade na nossa sociedade atual quando comparada consigo mesma, no passado outros cristãos viveram também em sociedades altamente sofisticadas na prática do pecado. A Roma do primeiro século é um desses casos. Paulo pintou o cenário degradante daquela sociedade, ao exortar os cristãos a se absterem das orgias e bebedices, impudicícias e dissoluções, contendas e ciúmes daquela sociedade (Rm 13.13). Ele já havia dito que os seres humanos viviam em condição moral terrível: sendo nulos em seus raciocínios, obscurecidos de coração, idólatras crassos, amantes da mentira, subversores da estrutura sexual natural; cheios de injustiça, malícia, avareza, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia; e que aprovavam socialmente o pecado (Rm 1.21-31) – uma descrição tragicamente vívida daquela sociedade na qual os nossos irmãos romanos estavam inseridos.

Por causa dessa realidade e devido às inclinações pecaminosas que encontram forte apoio social, dentre tantas instruções àquela igreja em Roma, Paulo trouxe uma que nos ajuda na busca por experimentarmos uma vida digna do Evangelho: “Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências.” (Rm 13.14). Assim, para que seja possível vencer o pecado, é necessário fazer algo, revestir-se de Cristo; e deixar de fazer algo: alimentar as paixões da carne. Revestir-se de Cristo significa em termos gerais abraçar a Cristo de tal “maneira que seu caráter se manifeste em tudo o que fazemos e dizemos. Esta exortação parece coincidir com a exortação no início desta seção, ‘serem transformados pela renovação da mente’ (12.1), sugerindo que é para a imagem de Cristo que estamos sendo transformados (cf. 8.29)”1 .

Quanto à proibição, o apóstolo Paulo constrói uma imagem intensa para expressá-la. Literalmente Paulo disse: “não façais provisão para os desejos da carne”. A palavra traduzida como “provisão” significa mais propriamente um planejamento cuidadoso feito por alguém para sempre ter em mãos o suprimento de suas necessidades – como ter sempre a dispensa de casa abastecida suficientemente até haver condições para a próxima compra. Entretanto, a figura emulada aqui é a de um ímpio astuto que sempre busca ter os recursos necessários para alimentar seus desejos pecaminosos. Assim, Paulo aponta que o cristão jamais deveria se dispor a fazer um planejamento cuidadoso para os seus desejos pecaminosos serem supridos, fazendo um estoque de mundanidade para não faltar aquilo que alimenta e satisfaz as paixões carnais, que leva à finalidade de alimentar o pecado; ao contrário, devem buscar sempre e continuamente abandonar a prática de fazer toda e qualquer provisão.

Alguns exemplos ajudam. Fazer provisão para os desejos da carne é semelhante a um dependente químico que está lutando para abandonar o vício, mas mantém guardada em casa uma porção da sua droga que consome; ou a um homem casado que quer abandonar a amante mas mantém sempre no bolso uma cópia da chave da casa dela; ou àquela pessoa que quer perder peso, mas mantém na geladeira os chocolates preferidos.

Quais são suas lutas principais? Jovens não conseguirão abandonar o estilo de vida mundano – por exemplo, não vencerão a luta intensa contra a imoralidade sexual – se levarem o mesmo estilo de vida dos colegas da universidade, alimentando-se das mesmas coisas que os supre toda sexta (para ser otimista) à noite ou assistindo séries de televisão cuja classificação é +18 anos. Cônjuges não vencerão os conflitos no casamento se na dispensa de seu coração guardarem sempre amargura, falta de perdão, ódio. Não haverá triunfo sobre o consumismo se alimentando do status desse mundo – não se vence o consumismo indo ao shopping para se fascinar com as vitrines da moda. Poderíamos multiplicar as aplicações, mas eu creio que o ponto esteja claro; bem como creio que sabemos bem quais são os nutrientes que alimentam nossa carne e enfraquece nossa alma.

Portanto, visite a dispensa de sua alma. Faça uma avaliação cuidadosa de tudo o que está ali, veja se não há algo que precisa ser jogado no lixo. Não, não consuma primeiro tudo que engorda para depois começar a dieta! Desfaça de tudo o que for preciso agora mesmo, de tudo que faz provisão para os desejos pecaminosos. E que o Senhor Deus graciosamente nos ajude a obedecer sua Palavra e a experimentar uma vida verdadeiramente satisfeita em Cristo, para a glória dele.


 

1 MOO, Douglas J. The Epistle to the Romans. The New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1996, p. 826, tradução minha.

 

0 Comments

Add a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *