O Duplo Valor das Crises na Vida de um Cristão

O Duplo Valor das Crises na Vida de um Cristão

“[…] o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração […].” Dt 8.2

A Bíblia ensina que nosso coração é enganoso, corrupto e, da perspectiva humana, insondável (Jr 17.9). Ela ainda afirma que dele procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19). Isso significa que não apenas temos um coração desesperadamente corrupto, mas que também estamos de mãos atadas quanto a conhecê-lo verdadeiramente, uma vez que ele nos engana a respeito de seus próprios intentos e inclinações. É por isso que o profeta Jeremias, depois de refletir sobre o coração, indaga: “quem o conhecerá?” (Jr 17.9).

Com efeito, há alguém que examina e conhece detalhadamente nosso coração: Deus (Jr 17.10). Ele sabe com precisão o que se encontra escondido em nosso ser e que sequer percebemos no dia a dia. Coisas que não estão na superfície, à nossa vista. Em sua bondade, Deus permite que por vezes vejamos o que não vemos costumeiramente: nossa própria miséria e corrupção. E assim graciosamente o faz expondo nosso coração a condições de crise, onde somos humilhados e nossa fé provada. Foi dessa maneira que Deus lidou com seu povo no deserto, por exemplo.

O hebreus haviam testemunhado dos feitos extraordinários de Deus no Egito (Êx 7–12). Além disso, viram algo até então inimaginável acontecer: um mar se abrir, oferecendo salvação a eles e condenação aos seus inimigos (Êx 14). Com todas essas demonstrações do poder divino em seu favor é possível que o coração daquele povo se sentisse seguro naquilo que ele era e não no caráter gracioso do Deus que o escolheu e o salvou com poderosa mão (cf. Dt 8.12-14). E assim, de fato, aconteceu. Quando Deus o conduziu pelo deserto, ele logo começou a revelar o que estava escondido: incredulidade, murmuração e idolatria (Êx 15.24; 16.1-3; 32.1-6; entre outros). Não que Deus não soubesse desde o início o caráter pecaminoso do coração de seu povo. Certamente, ele não foi pego de surpresa com isso. Na verdade, as crises produzidas pela peregrinação do deserto tinham um duplo propósito preestabelecido por Deus: humilhar o coração soberbo, conduzindo-o humildemente em adoração somente a ele (Dt 8.2).

Em nossa vida, não é diferente. Deus por vezes permite que o “calor” das crises traga à tona aquilo que estava outrora escondido atrás de uma capa de religiosidade: incredulidade, murmuração e idolatria – demonstrações claras de nossa miséria e corrupção remanescentes. E ver a nós mesmos não mais com os olhos de um coração soberbo, mas com as próprias lentes que Deus nos dá pelas Escrituras, pode ser assustador e humilhante ao mesmo tempo. Na verdade, é fundamental que seja assim, pois essa nova percepção humilhada de nós mesmos é o que nos conduz ao que a Bíblia chama de tristeza segundo Deus (2Co 7.10), produzindo arrependimento e fé.

Portanto, o duplo valor de toda crise na vida do cristão consiste:

  • No reconhecimento de nossa condição miserável. Não somos essencialmente bons. Não temos méritos suficientes para alcançarmos o favor divino. Nem mesmo nossos melhores atos de justiça estão livres da influência pecaminosa de nosso coração (Is 64.6). O entendimento de nossa condição enquanto humanidade corrompida e disfuncional – totalmente necessitada de que alguém que a salve de sua própria miséria e corrupção – é resultado inequívoco da operação do Espírito Santo na vida daquele que teve os olhos do coração abertos por Deus;
  • Na tristeza produzida pelo Espírito que abre caminhos para a fé na pessoa, obra e ensino de Cristo. Jesus, o Deus encarnado, viveu a perfeita vida de obediência que não conseguimos viver e experimentou a ira justa e santa do Pai que não poderíamos suportar por causa de nossos pecados. Ele fez tudo em nosso lugar; viveu e morreu por nós. Olhar com fé para Jesus é a única opção para aqueles que olham todos os dias com total descrença para si mesmos. Como disse Pedro: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). De fato, disse Jesus, “[…] sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). E não podemos mesmo.

Enfim, em nossa peregrinação em meio aos calores dos desertos da vida seremos marcados constantemente por um misto de tristeza e alegria, temor e fé, cansaço e alívio, preocupação e paz. Se por um lado, diante das crises, percebemos o pecado e a miséria que ainda restam em nós, por outro percebemos a glória da graça de Cristo e o louvamos por isso (Ef 1.6). Esse é o duplo valor das crises na vida do cristão: menos de nós, mais de Cristo.

Eron Franciulli Coutinho Jr

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