O Prazer que Glorifica a Deus

O Prazer que Glorifica a Deus

Vivemos em um mundo cheio de prazer. Para mim, o cheiro da terra molhada em Minas Gerais, as tardes de outubro, as músicas do Grupo Logos, a comida de minha mãe e os bons filmes assistidos na companhia de minha linda esposa, entre tantas outras experiências singulares, enchem meu coração de alegria e de gratidão a Deus. Diariamente, meus sentidos captam a realidade e me fazem experimentar dos prazeres da existência. E para você, o que lhe dá prazer?

Na verdade, o mundo só é assim, belo e cheio de coisas agradáveis a se desfrutar, porque Deus o criou dessa maneira. O Criador encheu a terra com sua glória (Sl 19; Is 6.3), fazendo de cada prazer um apontamento em direção a ele próprio – a fonte última de todo prazer. Como diz o antigo hino, “flores e frutos, montanhas e mares, sol, lua, estrelas brilhando no céu; tudo criaste na terra e nos ares para louvar-te, Senhor, que és fiel”[1].

Sendo assim, eu e você podemos conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs[2] e nos alegramos com tantas cores, perfumes e sabores; ou podemos ainda deixar o vento beijar nossos cabelos, as ondas lamberem nossas pernas, o sol abraçar nosso corpo[3], na Califórnia ou em Ubatuba mesmo, e nos lembrarmos alegremente de nosso Criador. Todos os prazeres que desfrutamos devem ser compreendidos e experimentados sob a perspectiva da criação, uma vez que Deus imprimiu no mundo a sua própria glória.

Contudo, por falta de conhecimento sobre o assunto – e até mesmo pelo pecado, que deturpou nossa capacidade de interpretá-lo corretamente – nós, cristãos, precisamos muitas vezes sermos lembrados de algumas verdades sobre os prazeres da vida. Então, baseando-me nos escritos do Dr. Paul David Tripp[4], proponho abaixo cinco importantes considerações sobre o prazer:

1. O prazer não é essencialmente ruim. Diferentemente dos ascetas, que renunciam todos os prazeres da vida, a fim de atingirem um estado espiritual superior, nós não devemos ver o prazer como algo essencialmente maléfico ou prejudicial a nós ou à nossa vida espiritual. Compreender o prazer como algo “demoníaco” é compreender incorretamente a natureza da criação de Deus e a natureza dos seres humanos. Deus criou o mundo cheio de prazer e ele mesmo achou tudo o que criou “muito bom” (Gn 1.31). Então, o grande problema não é experimentar os prazeres do mundo, mas experimentá-los contrário à vontade de Deus ou de maneira autônoma, sem considerar o Criador.

2. O prazer glorifica a Deus. Consequentemente, os prazeres da vida não depreciam a glória de Deus. Pelo contrário, eles são instrumentos usados por Deus para nos lembrar quem realmente é a fonte de toda a alegria e satisfação. Através deles, Deus chama a nossa atenção e captura nosso coração. O prazer existe, então, para nos estimular à adoração, não da coisa em si, mas daquele que a criou. Os prazeres experimentados sob as diretrizes da Escritura Sagrada nos trazem alegria e glorificam ao Criador. Além do mais, eles nos fazem perceber que haverá um momento em que desfrutaremos do prazer sem fim, na eternidade com Deus.

3. O prazer sempre demanda limites. Obviamente, em um mundo quebrado e desfigurado pelo pecado, o prazer, para cumprir seu propósito de conduzir o homem à adoração, precisa ser vivido dentro dos limites estabelecidos pelo próprio Deus – como destacado acima. Se no próprio Éden o prazer era limitado por Deus (Gn 2.16-17), quanto mais agora em um mundo corrompido. Isso significa que só há prazer genuíno quando há obediência às regras de Deus. Prazer sem limites não é liberdade, é estupidez e geralmente domina, vicia e controla aqueles que a ele se entregam.

4. O verdadeiro prazer nos protege dos falsos prazeres. Quando experimentamos os prazeres da vida sob a perspectiva da criação, ou seja, adorando ao Deus que os criou, automaticamente somos protegidos de nossa inclinação idólatra. Viver sob o domínio de um prazer é perigoso e autodestrutivo. Muitas pessoas experimentam trágicas consequências disso. Sendo assim, somente o conhecimento e o relacionamento com Deus podem manter nossa visão equilibrada sobre os prazeres e sobre como desfrutá-los.

5. Quando se trata de prazer, todo cuidado é pouco. Sabendo do potencial enganador de nosso coração, todo cuidado é pouco na hora de lidarmos com o prazer. Como diz Paul Tripp, “nossos prazeres nos contarão mentiras, farão promessas que não podem cumprir, oferecerão vida quando, de fato, entregarão o oposto”. Lembre-se, então, de ser cuidadoso quanto aos prazeres que deseja vivenciar. Você pode, facilmente, estar sendo enganado pelo seu coração.

Enfim, considerando esses cinco pontos é possível adorarmos ao Criador, experimentando os prazeres que ele mesmo propiciou a nós sem nos sentirmos culpados por isso. Gosto de pensar, então, no mundo como Nathan D. Wilson o ilustrou, em seu livro Notas da Xícara Maluca. Finalizo com suas palavras:

“Bem-vindo ao parque de diversões. Desça da roda gigante. Saia das sombras e dos trailers desequilibrados. Há uma história para contar, um mundo de surpresas e questões a explorar, uma personalidade continuamente sondada a ser descoberta e entendida na realidade ao nosso redor. E há Alguém por trás disso. Bem-vindo ao poema Dele. À peça Dele. Este é o mundo falado por Ele”.[5]

Como você desfrutará dele, hoje?

Eron Franciulli C. Júnior

[1] Hino 32 “O Deus Fiel” – Hinário Novo Cântico.

[2] “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira.

[3] “De Repente, Califórnia”, de Lulu Santos e Nelson Motta.

[4] TRIPP, P. David. Sexo e Dinheiro. Ed. Cultura Cristã, 2014. 176 págs.

[5] WILSON, Nathan D. Notas da Xícara Maluca. Ed. Monergismo, 210 Págs.