O que Há de Errado com o Evangeliquês?

O que Há de Errado com o Evangeliquês?

Em uma conversa, você já usou determinado termo bíblico que causou dúvida na outra pessoa? Por vezes, o vocabulário utilizado por muitos de nós evangélicos – o “evangeliquês” – causa estranheza às pessoas que não estão familiarizadas ao contexto eclesiástico. “Unção”, “levita” e “benção” são apenas alguns exemplos de uma extensa terminologia que costuma permear o evangelicalismo brasileiro contemporâneo.

Entretanto, embora inofensivos e engraçados na maioria das vezes, tais termos e expressões podem não reproduzir com precisão o ensinamento bíblico ao qual visam fazer referência. Pense, por exemplo, na diferença entre os levitas do Antigo Testamento e os chamados “levitas”, hoje. Trata-se de pessoas e papéis completamente diferentes (se quiser, você pode ler mais sobre isso clicando aqui). Nesse sentido, o evangeliquês mais obscurece o ensinamento bíblico a respeito do assunto do que o elucida.

Por isso, listo abaixo alguns termos e expressões usados pelos evangélicos que, embora bíblicos, destoam da definição que a própria Bíblia concede a eles. Obviamente, não se trata de uma lista exaustiva, até porque seria uma verdadeira “pedra de tropeço” analisar todos os “mistérios” dessa “benção” chamada evangeliquês.

  1. Templo. É muito comum nos referirmos ao salão de cultos de nossas igrejas – ou à toda a igreja – como o “templo”. Embora o uso desse termo não implique problema grave, e por isso não deve ser ridicularizado ou abolido, é necessário termos em mente que o templo do Antigo Testamento, bem como suas cerimônias, era bem diferente de nossas igrejas, hoje. Como colocou Augustus Nicodemus, tudo o que se fazia no templo Jesus já fez por nós na cruz[1] (cf. Mt 12.5,6; 26.61). Portanto, o templo do Antigo Testamento, suas cerimonias e seu significado eram sombra da obra de Cristo em nosso favor.
  1. Altar ou Trono? Outra confusão entre evangélicos ocorre com o uso dos termos “altar” e “trono”. Em parte, isso se dá pela herança católica de nosso país. Em toda igreja romana há um altar, que representa o sacrifício de Cristo na celebração da Eucaristia[2]. Contudo, como no ponto anterior, o altar no Antigo Testamento era uma sombra do sacrifício que Cristo fez de uma vez por todas (cf. Hb 7.27). No Novo Testamento a representatividade da obra de Cristo se dá por meio do trono (cf. Hb 4.14-16) – uma clara referência ao seu reinado soberano sobre tudo e sobre todos (cf. Fp 2.9-11).
  1. Fogo/Batismo com fogo. Há várias palavras no espectro gospel, sobretudo na música, que de tempos em tempos parecem se sobressair as demais. “Fogo” ou “batismo com fogo” é um caso desses. Muitos cânticos contemporâneos pedem para que Deus derrame fogo sobre o povo dele. A ideia vem dos textos de Mateus e Lucas (cf. Mt 3.1-12; Lc 3.16), onde entende-se que tal expressão diz respeito a um revestimento de poder espiritual. No entanto, em ambos os casos há elementos literários mostrando que o fogo ali descrito indica juízo e condenação[3] (veja esse vídeo que resume bem a questão). E esse parece ser um padrão de toda a Bíblia – associar o fogo ao juízo divino (cf. Gn 19.24; Êx 9.23,24; 2Pe 3.7; entre outros). Logo, pedir “fogo” a Deus pode não ser lá uma escolha muito sábia.
  1. Deus é bom/Graças a Deus. Por fim, destaco não o erro, mas a parcialidade com que muitas vezes usamos as expressões “Deus é bom” e “graças a Deus”. Geralmente, dizemos essas frases após recebermos boas notícias e livramentos. E, de fato, estamos corretos em fazê-lo. Contudo, o ensinamento bíblico aprofunda essa questão, orientando-nos a ser gratos a Deus até mesmo pelas situações difíceis que nos sobrevêm. Para isso devemos nos lembrar de que a bondade de Deus já foi escancarada na cruz do Calvário, através de obra de Cristo em nosso favor, e que “…todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” ( Rm 8.28). Por isso, diz a Bíblia, “…em tudo, daí graças” (cf. 1Ts 5.18).

Concluindo, o evangeliquês pode ser até engraçado em alguns momentos, mas nem sempre é pedagógico. E, sendo as Escrituras a revelação especial do próprio Deus a nós, conhecê-la e explicar corretamente seus ensinamentos é fundamental para todos os que desejam crescer no conhecimento de Deus.

Eron Franciulli Coutinho Jr

[1] https://noticias.gospelmais.com.br/reverendo-augustus-nicodemus-questiona-templo-salomao-69441.html

[2] https://pt.aleteia.org/2017/07/03/conheca-o-significado-do-altar-de-uma-igreja/

[3] http://reformados21.com.br/2016/07/06/o-que-significa-o-batismo-com-fogo/

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