Obesos e Desnutridos

Obesos e Desnutridos

Segundo o Relatório Global de Nutrição, nos últimos anos quase metade dos 193 países tem lidado com problemas relacionados à desnutrição e obesidade em sua população[1]. Conquanto o que era entendido como extremos – sobrepeso ou subnutrição – percebe-se agora como possíveis lados de uma mesma moeda. Ou seja, cada vez mais a incidência de desnutrição se mostra relacionada à obesidade, desmistificando a ideia de que o problema é exclusivo das crianças pobres dos países em desenvolvimento.

Basicamente, isso tem relação com o fato das pessoas se alimentarem incorretamente. Embora comam o suficiente para se sentirem saciadas, não ingerem os nutrientes que verdadeiramente necessitam. Ou seja, preferem o doce à fruta, o refrigerante à água e assim por diante. O resultado é o ganho de peso em detrimento da nutrição adequada e, consequentemente, da saúde. Exemplo drástico dessa realidade é jovem Carlos Antônio, que mesmo pesando 420kg foi diagnosticado com desnutrição.[2]

Talvez esse problema seja uma boa analogia dos perigos que uma incorreta “alimentação espiritual” pode causar a muitos cristãos. Ultimamente, o Brasil tem experimentado significativo despertar teológico, sobretudo, no que diz respeito à teologia reformada. São livros, artigos, vídeos, podcasts, institutos, conferências, blogs, aplicativos e muitas outras plataformas disponíveis àqueles que se interessam pelo assunto. Nas redes sociais, por exemplo, a soma dos seguidores de apenas alguns expoentes da teologia reformada alcança facilmente a casa do milhão.

Obviamente, tudo isso é muito bom. Os cristãos têm conhecido mais sobre teologia e se preparado intelectualmente para responder aos questionamentos da sociedade bem como aos ataques que são feitos à fé cristã. Entretanto, uma “dieta” exclusiva e exaustiva de alimento teológico não representa necessariamente aquela que nutre, fortalece e gera vitalidade espiritual. Nesse sentido, é possível ser obeso teologicamente e, ainda assim, estar espiritualmente desnutrido. E que triste e perigosa realidade é essa!

J. I. Packer expressou isso de forma cirúrgica em seu livro O Conhecimento de Deus. “É possível que alguém saiba muito sobre Deus sem ter muito conhecimento dele”.[3] Mais à frente, concluiu: “…o interesse por teologia e conhecimento sobre Deus e a capacidade de pensar claramente e falar bem sobre temas cristãos não são nem de longe a mesma coisa que conhecê-lo (…) Podemos saber tanto sobre Deus quanto Calvino (…) e ainda assim, (…) dificilmente conhecermos algo a respeito de Deus”.[4]

O apóstolo Pedro já havia exortado quanto ao perigo de se fazer essa dissociação. Ele escreveu: “associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor” (2Pe 1.5-7). Na percepção dele, boa teologia e vida piedosa se entrelaçam em sucessivas relações, que não devem, em hipótese alguma, ser segmentadas.

Portanto, o que torna o cristão espiritualmente nutrido não é somente o conhecimento teológico que ele possui, mas, especialmente, a capacidade de traduzir boa teologia em vida piedosa. Isso, na prática, significa amar a Deus com todo o entendimento e também com todas as forças (Lc. 10.27). Significa viver cada aspecto da realidade com vistas à glorifica-lo; significa conhecer sua Palavra e praticá-la; significa, sobretudo, conhecer sobre e a respeito de Deus.

Eron Franciulli Coutinho Jr

[1]https://www.bbc.com/portuguese/geral-36527283

[2]https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/obesos-podem-sofrer-de-desnutricao-carencia-de-proteinas-comum-16777923.html

[3] PACKER, J. I. O Conhecimento de Deus. Ed. Cultura Cristã. São Paulo: 2014. Pág. 23.

[4] Ibdem. Pág. 24.

0 Comments

Add a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *