Quando eu não mais Admiro meu Cônjuge

Quando eu não mais Admiro meu Cônjuge

Uma das vantagens que vejo em tirar férias é a de fazer coisas que não seriam possíveis em dias comuns. No meu caso, o incomum foi assistir ao programa Encontro, com Fátima Bernardes – que na ocasião trouxe como pauta principal o tema “divórcio”.

Obviamente, eu não esperava uma abordagem conservadora do assunto por aquele programa, mas mesmo assim não deixei de me surpreender com progressismo exposto, claramente incentivando os telespectadores à liberdade que o divórcio (teoricamente) proporciona. Pesquisas, reportagens e “especialistas”, de maneira não velada, trataram do assunto como algo necessário à manutenção da felicidade pessoal.

Entre as principais justificativas apresentadas para o divórcio, uma, em especial, me chamou a atenção: a falta de admiração. Em outras palavras, eles propuseram algo assim: “quando a admiração [em qualquer sentido] pelo cônjuge acaba, o casamento deve acabar”.

Aliás, esse argumento não é novo nos veículos de entretenimento atuais. Há alguns anos, a revista GQ Brasil trouxe na capa opinião similar, dizendo que a saúde sexual de um casamento depende exclusivamente da admiração que se tem pelo cônjuge. Também já assisti a entrevistas semelhantes, nas quais artistas seguiam o mesmo raciocínio a favor do divórcio.

Talvez eu precisasse de mais dados e informações para provar “cientificamente” a existência de um lobby midiático a favor do divórcio pela falta de admiração. Porém, quando olho à volta, percebo que isso não é necessário, uma vez que se trata de algo muito comum na opinião popular. Quem nunca ouviu certas queixas de um cônjuge insatisfeito, dizendo sobre o outro: “ele(a) não é mais a mesma pessoa”; ou: “parece que a emoção entre nós acabou”, ou ainda: “ele(a) tem defeitos que eu não percebia… não dá mais”. O fato é que essas expressões, e outras semelhantes, refletem o mesmo argumento exposto pelo programa.

Sinceramente, de maneira alguma desejo menosprezar aqui a importância de nutrir admiração pelo cônjuge. É saudável, e até mesmo necessário, alimentar o amor conjugal diariamente com bons pensamentos a respeito da pessoa amada (Fp 4.8). Contudo, essa proposição contemporânea, que faz da admiração o crivo máximo para justificar um divórcio, de modo nenhum reflete os preceitos da Palavra de Deus sobre esse assunto (Mt 19.1-9; 1Co 7.1-17).

Portanto, escrevo abaixo três críticas àquilo que estou chamando aqui de admiração última, ou seja, quando alguém faz da admiração o medidor maior para julgar e sentenciar um casamento. Após isso, pautado no ensinamento bíblico, proponho três maneiras de lidarmos com a frustração que todos estamos sujeitos de, em certos momentos, por um ou vários motivos, não mais admirar nosso cônjuge.

Os problemas da admiração última

  • Admiração última é utopia. Gosto muito de filmes. De (quase) todos os tipos; até mesmo dos românticos. Mesmo assim, não posso deixar de perceber o desserviço que prestam a nós aqueles que contam uma história de amor de maneira irrealista, exaltando a admiração cega e avassaladora. Provavelmente, se houvesse uma continuação após o final feliz, veríamos as dificuldades da rotina esmagadora pesando sobre os “pombinhos”. Então, meu ponto aqui é: admiração última é utopia e não há espaço para ela em relacionamentos reais, uma vez que seres pecadores e inclinados a erros nunca serão dignos de tal admiração. É ilusão acreditarmos que não nos decepcionaremos com nosso cônjuge. Não é uma questão de “se”, e sim apenas de “quando” isso irá acontecer.
  • Admiração última é idolatria. Um dos problemas centrais da admiração última (como descrevi no tópico anterior) é a falta de consideração sobre a humanidade da pessoa admirada. Consequentemente, com a corruptibilidade das pessoas escanteada, o que resta é a divinização delas. O que é isso, se não idolatria? Portanto, admirar sem considerar é idolatrar. Sempre. Quando isso acontece, é colocado um peso divino sobre a pessoa admirada e uma expectativa sobre-humana de que ela conceda satisfação última e razão para viver. No entanto, somente Deus pode conceder essas coisas! A idolatria desvia nossos olhos de Deus para algum aspecto de sua criação. 
  • Admiração última é egoísmo. O jovem diz que ama sua namorada. Ela pergunta por que ele a ama. Ele, sem pensar, diz: “porque você me faz feliz”. Depois de um silêncio pavoroso e um sorriso amarelo, talvez ele perceba o problema. O amor dele não é essencialmente por quem ela é e sim pelo que ela proporciona a ele – no caso, a felicidade. No final das contas, o amor maior dele é por si mesmo! Não é preciso ir muito longe para notar que essa estória serve como analogia ao problema da admiração última. Quando admiramos alguém de modo cego, em último caso, não estamos nos contentando com aquilo que a pessoa é e sim com o que ela proporciona a nós – o prazer de admirá-la por um ou vários aspectos. Geralmente, nesses casos, a percepção da realidade só vem à tona quando a admiração por algum motivo desaparece e lá se vai o “eu te amarei para sempre”.

Como lidar com a frustração?

  • Não segmente a admiração. Um dos problemas de quem está vivenciando a frustração de não mais admirar seu cônjuge é a falta de percepção da realidade como um todo. Da mesma maneira que ninguém é completamente admirável, ninguém é completamente desprezível. Todos temos virtudes e defeitos. Por vezes, perdemos aquilo que mais admiramos em nosso cônjuge. Outras vezes, contudo, passamos a admirá-lo por outras características que não percebíamos. Então, aprenda a experimentar a admiração dentro do “grande quadro”. Lide com sua frustração, ponderando o todo. Sempre haverá aspectos positivos a se admirar.
  • Auxilie seu cônjuge a se tornar admirável novamente. Como já disse, é possível que nós (e nossos cônjuges) nos tornemos, em certos momentos, alguém não admirável. Nesses momentos, a reposta para a falta de admiração não é o divórcio e sim o amor. Na verdade, o amor de um casal cresce na mesma proporção de sua abnegação. Quando amamos sem visarmos ser recompensados pela pessoa amada, vivenciamos um amor mais parecido com o que Deus tem por nós (Rm 5.8). Portanto, em momentos de crise pela falta de admiração, ao invés de desistir de seu cônjuge, auxilie-o a se tornar admirável novamente, amando-o com o amor que você tem recebido do Pai Celestial.
  • Ore pela pessoa amada. Uma das melhores formas de resgatarmos/cultivarmos a admiração pelo nosso cônjuge é orando por ele. No momento que oramos por alguém, pedimos o bem dela à Deus e suplicamos a intervenção divina na vida daquela pessoa. O resultado interno, é que passamos a amar aqueles por quem oramos. Como destaquei em minhas críticas à admiração última, não existe homem ou mulher perfeita. Somos todos pecadores. Então, em seus momentos de frustração conjugal, lembre-se de orar por seu cônjuge pecador. Essa é uma das formas mais efetivas de amá-lo.

Cristo, o cônjuge perfeito

Só existe uma pessoa por quem nós podemos nutrir admiração última: o Deus-Homem, Jesus Cristo. Ele, sim, é o cônjuge perfeito. E ele nos ama plenamente, perfeitamente. Além do mais, ele continua nos amando mesmo naqueles momentos que não somos admiráveis. Portanto, admire-o acima de tudo e de todos, pois com ele você não se frustrará. Nunca.

Eron Franciulli C. Júnior

One Comment

  1. Juliana

    Obrigada por esse texto, baseado na biblia, estou num momento difícil e foi como um refrigério eu ter lido esse artigo. Muito obrigada.

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