Três Crises de todo Perfeccionista

Três Crises de todo Perfeccionista

Ainda me lembro de minha primeira redação no ensino fundamental. A professora havia pedido a turma que escrevesse uma dissertação tema livre, para apresentação na aula seguinte. Cheguei em casa, “engoli” a comida e todo empolgado passei o dia escrevendo – fato raro para um menino boleiro. Creio que produzi uns vinte rascunhos antes do texto final (naquela época, a folha de papel almaço rasgava com as borrachas Mercur). No outro dia acordei mais cedo e ansiosamente esperei pela aula, após o intervalo.

O grande momento havia chegado. Lá estava eu, de pé em frente à turma, expondo meu precioso “bebê” para admiração pública, ora com os olhos no papel ora com os olhos na professora, tentando captar se suas expressões faciais reconheciam minha obra de arte. Ao final da apresentação, a sensação de glória iminente foi dissipada pelas seguintes palavras: “Ótimo texto, Eron, mas não foi isso que pedi”. O problema foi que ela havia pedido um texto dissertativo e eu escrevi um texto narrativo – uma história fictícia sobre um herói de guerra, muito ruim por sinal. Sentei cabisbaixo na carteira, completamente envergonhado, e levei ao menos uma semana para sair daquela “deprê”, além, é claro, de não querer mais vê-la nem “pintada de ouro”.

Talvez essa minha experiência seja um bom exemplo de como o perfeccionismo pode atrapalhar a vida das pessoas. Basicamente, aqueles que tentam ser perfeitos em tudo o que fazem – não confunda isso com dedicação, proatividade e eficiência – acabam se frustrando consigo mesmos, com os outros e, especialmente, com Deus. Trata-se de ao menos três crises que todo perfeccionista tem que lidar.

Em primeiro lugar, o perfeccionista lida com a frustração de não ser o que deseja. Minha dedicação ao trabalho proposto era fruto de um coração que desejava glória e reconhecimento sobre os meus colegas. Minha intenção sempre foi a de ser o melhor da classe naquela tarefa. Eu não queria ser bom. Eu queria ser perfeito! Queria que minha professora abrisse um sorriso e me dissesse: “Uau! Que texto incrível. Parabéns!”. O problema é que nesse mundo de aproximadamente 7,6 bilhões de habitantes sempre haverá alguém melhor do que eu e você – em todos os aspectos. Além disso, há o risco real e iminente de não conseguirmos fazer corretamente o que nos dispomos a fazer. Afinal, somos pecadores e falhos e por vezes erramos, nos confundimos e nos esquecemos até mesmo das coisas mais básicas – como uma simples instrução da professora sobre o tipo de trabalho a ser produzido.

Em segundo lugar, o perfeccionista lida com a frustração de se relacionar com aqueles que tiram suas máscaras de perfeição. Veja que em minha saga literária eu não percebi o elogio que a professora fez ao texto. Ela começou dizendo: “Ótimo texto”. Porém, a única coisa que eu realmente ouvi naquele momento constrangedor foi: “…eu não pedi isso”. Diante de sua crítica eu fiquei desorientado e irado com ela. E é exatamente esse o problema de todo perfeccionista: quando alguém critica o trabalho “perfeito” dele, que certamente lhe custou enormes sacrifícios, na verdade esse alguém está criticando quem ele é. Todo perfeccionista confunde quem ele é com o que ele faz/produz. Ele crê que sua identidade está fundamentada em seu desempenho. Quando o desempenho não é valorizado, ele também não é. É exatamente por isso que criticar um perfeccionista é um desafio e tanto. Provavelmente ele não aceitará as críticas que recebeu, alimentará rancor pelo crítico e tentará se afastar dele.

Em terceiro lugar, o perfeccionista lida com a frustração de não encontrar o que busca: aceitação. A minha tristeza, vergonha e ira após a crítica da professora revelaram algo que estava escondido no meu coração: a vontade de ser aceito por meio de minhas qualidades – caso que não ocorreu. Porém, mesmo que eu tivesse produzido o melhor texto da sala e tivesse recebido inúmeros elogios, ainda assim, a sensação de algo faltante permaneceria no meu coração, pois eu buscava a aceitação que somente Deus pode me dar. Perfeccionistas lidam com essa tensão o tempo todo: embora façam e produzam de modo excelente, nunca estão satisfeitos com os elogios e recompensas que recebem. Sempre falta algo. A consequência imediata desse tipo de procedimento é ou buscar novos modos de expor sua excelência – uma busca infindável e extremamente desgastante – ou se afundar em desânimo por não ter satisfeitos os anseios que o moveu à ação.

Enfim, todo perfeccionista precisa lidar com essas três questões. Contudo, há apenas uma maneira de resolver esse problema: pregarmos diariamente o evangelho a nós mesmos. Dizermos ao nosso coração que nossa identidade não está fundamentada no que fazemos ou produzimos e sim em quem Cristo é e no que ele, perfeitamente, já fez por nós. Viver dessa maneira nos torna livres. Livres para lidarmos de maneira saudável com nossas próprias faltas e incapacidade, não nos afundando em culpa; livres para ouvirmos e ponderarmos sobre as críticas que nos são feitas, sem que isso nos deixe completamente abatidos e desanimados; e livres para sermos o que somos: pessoas imperfeitas já completamente aceitas por Deus por meio da perfeição de Jesus Cristo.

Eron Franciulli Coutinho Jr

2 Comments

  1. Sônia

    Está muito bem escrito a sua frustração e de como você se recuperou d essa raiva e decepção pela observação que sua professora fez do seu trabalho. Que bom que você se recuperou em Cristo Jesus.

  2. Rita Lira

    Apesar de não conhecê-lo pessoalmente(já ouvi as suas pregações online na Igreja de Campo Belo)gostaria que soubesse que eu gostei muito da matéria que acabei de ler.Sempre fui perfeccionista com os meus afazeres,tanto no trabalho como em minha casa.Ja sofri com isso mas agora estou bem menos,talvez por causa da idade pois chega um tempo em sua vida que você está tão cansado que se preocupar menos com essas coisas!Creia que o texto me ajudou bastante e me lembrei de várias vezes fazer exatamente assim!Que Deus o abençoe!
    Em Cristo;
    Rita Lira

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