Você Realmente Compreende o Evangelho ou sua Devoção é Apenas Religiosidade?

Você Realmente Compreende o Evangelho ou sua Devoção é Apenas Religiosidade?

O que a mensagem do Evangelho tem a ver com religiosidade? Absolutamente nada! Infelizmente, muitas pessoas confundem mera religiosidade como sendo uma expressão do comprometimento com o Evangelho de Cristo, mas isso é um grande erro. O resultado desse equívoco acaba sendo expressões modernas do farisaísmo, legalismo e subjetividade, ou seja, a crença de que nosso relacionamento com Deus é fundamentado no esforço próprio.

Nesse caso, o religioso geralmente se compara às pessoas ao seu redor, especialmente àquelas que parecem “mais pecadoras” do que ele. Esse foi o caso do irmão mais velho do filho pródigo (cf. Lc 15.29) e do fariseu em relação ao publicano (cf. Lc 18.11). Nesse sentido, é muito fácil para o religioso desenvolver “orgulho espiritual”, esquecendo-se de que Deus resiste ao soberbo (cf. Tiago 4.6).

É comum ouvir a definição do Evangelho como sendo “boas novas”, mas nem sempre se explica qual é, verdadeiramente, a novidade dessa mensagem. Por isso, consideremos em primeiro lugar que a boa notícia do Evangelho é a proclamação do que Deus realizou pelo pecador e não do que foi conquistado pelo esforço humano. O apóstolo Paulo afirma que “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3-4). Ou seja, a salvação foi completamente realizada por Deus. Resta ao ser humano responder a essa graça por meio de uma vida santa, mas ele não conseguirá “pagar” nem “contribuir” com sua salvação. Também, o Evangelho proclama que somente somos aceitos por causa do sacrifício de Cristo, que tomou sobre si os nossos pecados para que ele pudesse nos revestir com sua justiça. Essa troca parece injusta, mas somente por causa disso é que podemos ser adotados à família de Deus. Em última instância, o Evangelho nos convida a reconhecer nossa limitação e viver em contínua gratidão ao Deus que por nós tudo executa (cf. Sl 57.2).

Por outro lado, religiosidade é aceitação teórica do sacrifício de Cristo na conversão, mas na prática, a dependência do esforço pessoal no restante da vida cristã, ou seja, na santificação. Esse foi o erro dos Gálatas que, “tendo começado no Espírito”, queriam obter o aperfeiçoamento pela carne (cf. Gl 3.3). O problema é que isso não aconteceu somente com os cristãos do primeiro século, mas a heresia gálata continua muito viva entre os evangélicos contemporâneos. A fim de analisar melhor essa diferença, veja a comparação sugerida pelo pregador americano Tim Keller e adaptada para nossa realidade.[1]

Categorias Religiosidade Evangelho
Aceitação “Eu obedeço; portanto, sou aceito” “Eu sou aceito; portanto, obedeço!”
Motivação Motivação está fundamentada no medo e na insegurança Motivação está fundamentada na alegria e na gratidão
Obediência “Eu obedeço a Deus para obter algumas bênçãos dele” “Eu obedeço a Deus para desfrutar da comunhão com o próprio Deus!”
Circunstâncias “Quando as coisas não acontecem como eu quero, fico irado com Deus e comigo mesmo, pois acredito que todos que são bons merecem uma boa vida” “Quando as coisas não acontecem como eu quero, eu sofro, mas sei que toda a minha punição caiu sobre Cristo na cruz e que Deus permite o sofrimento e frustração para que eu seja conformado à imagem do seu Filho Amado”
Críticas “Quando sou criticado me sinto derrotado, já que me considero uma boa pessoa, a crítica afeta minha autoimagem” “Quando sou criticado eu sofro, mas estou ciente de minhas limitações e minha nova identidade não depende do meu passado e nem do que eu ou outros pensam a meu respeito, mas do que Deus, nas Escrituras, afirma a meu respeito”
Oração “Minha vida de oração consiste basicamente de petições e ela geralmente intensifica nas ocasiões de necessidades” “Minha vida de oração consiste de expressões de gratidão e louvor a Deus por sua graça e meu principal propósito nas orações é cultivar comunhão com Deus”
Atitude em relação aos meus irmãos em Cristo “Não consigo me alegrar com o progresso dos outros, pois afinal, eu me esforcei muito mais do que eles para chegar onde cheguei” “Que bênção ver um irmão crescendo na graça! Isso é uma demonstração da intervenção e misericórdia de Deus para com aqueles que estão ao meu redor”

 

Concluindo, a religiosidade acaba sendo um empecilho ao progresso do Evangelho na vida do crente. Ela resulta em orgulho íntimo, preconceito com os mais fracos e insegurança quanto ao favor de Deus. Por outro lado, o Evangelho resulta em transformação, novidade de vida e liberdade para se expressar generosidade para com os mais fracos ao redor.

Minha oração é que sua devoção a Cristo não seja fruto de uma religiosidade vazia, mas uma resposta sincera de quem compreendeu a mensagem do Evangelho. Somente assim seremos santificados e nossa vida glorificará a Deus.

Pr. Valdeci Santos

[1] Cf. https://www.christianpost.com/news/the-differences-between-religion-and-the-gospel-49758/. Acesso: 08.10.2018.

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